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Guia completo Treino

Treino de ciclismo: como montar o seu (zonas, FTP, rolo, volume e recuperação)

Zonas de potência e de frequência cardíaca, teste de FTP, a planilha da semana para três níveis e o que fazer no rolo, na academia e no prato. Tudo com a fonte do lado.

Por Redação DH BrasilRevisado em 20 min de leitura
Ciclista de speed subindo uma serra em pé nos pedais durante um treino de tiros, com o vale verde ao fundo
Imagem ilustrativa gerada com IA

Treino de ciclismo não é pedalar muito. É pedalar o suficiente, na intensidade certa, e descansar o bastante para o corpo transformar cansaço em fôlego. Este guia monta esse plano: zonas de treino ciclismo por potência e por frequência cardíaca, como medir o FTP com ou sem medidor de potência, polarizado ou sweet spot, três modelos de planilha de treino ciclismo e o que muda no rolo, na academia, na cama e na caramanhola. A base é o que a fisiologia do esporte publicou, de Andrew Coggan e Hunter Allen a Stephen Seiler e aos posicionamentos do ACSM (American College of Sports Medicine).

0,95fator do teste de FTP de 20 minutos
80/20leve contra forte no modelo polarizado
60a 90 g/hcarboidrato no pedal longo
2%perda de peso que o ACSM manda evitar

O que faz um treino de ciclismo funcionar?

Três princípios explicam quase tudo. O primeiro é a sobrecarga progressiva: o corpo só se adapta a um estímulo maior do que está acostumado. Se você faz o mesmo pedal de 40 km no mesmo ritmo há dois anos, ele virou manutenção. Para evoluir, a duração, a intensidade ou a frequência precisa crescer aos poucos. O ACSM, no posicionamento de 2009 sobre treino de força, dá a medida: suba a carga de 2 a 10% quando passar uma ou duas repetições do alvo. Na bike, a lógica é a mesma, em degraus pequenos e semanais.

O segundo é a especificidade: você melhora no que treina. Quem corre XCO precisa repetir tiros de um a quatro minutos acima do limiar; quem encara uma maratona de MTB ou a Serra do Rio do Rastro precisa de horas no selim e de saber comer pedalando.

O terceiro é a recuperação. O treino derruba o desempenho por horas ou dias; a melhora aparece no descanso, quando o corpo repara e reforça o que foi exigido. O consenso de 2013 da European College of Sport Science com o ACSM, de Romain Meeusen e colegas, resume: o desempenho só sobe quando a sobrecarga vem equilibrada com recuperação. O erro clássico do amador é pedalar tudo no "moderado forte": nunca rápido o bastante para estimular o topo nem lento o bastante para recuperar.

Quais são as zonas de treino no ciclismo?

Zona é uma faixa de intensidade com efeito fisiológico próprio. O modelo mais usado é o de sete níveis de Andrew Coggan, fisiologista que popularizou o treino com potência ao lado do treinador Hunter Allen. Cada nível é uma porcentagem do FTP (Functional Threshold Power, a potência de limiar funcional), grosso modo o maior esforço que você sustenta por cerca de uma hora.

Coggan dá a FC em porcentagem da FC de limiar, a que você acha com o teste de 30 minutos descrito mais abaixo, e é essa escala que a tabela usa. Se você só conhece a FC máxima, há uma referência mais grosseira: numa pesquisa de 2025 com atletas e treinadores, Seiler-Viken, Stephen Seiler e colegas viram que os noruegueses põem, em média, o começo da zona 2 da escala de cinco zonas perto de 70% da FCmáx, da zona 3 perto de 80%, da zona 4 perto de 87% e da zona 5 perto de 92%. São limites usados na prática, não medidos em você: dois ciclistas com a mesma FCmáx podem ter limiares em pontos diferentes.

As zonas de treino ciclismo de Coggan, por potência e por frequência cardíaca
ZonaPotência (% do FTP)FC (% da FC de limiar)Sensação (esforço 0 a 10)Para que serve
Z1 Recuperação ativaaté 55até 68menos de 2: giro soltoSoltar as pernas entre dias fortes
Z2 Endurance56 a 7569 a 832 a 3: conversa inteiraBase aeróbica e pedal longo
Z3 Tempo76 a 9084 a 943 a 4: frases curtasRitmo de grupo e de maratona
Z4 Limiar91 a 10595 a 1054 a 5: poucas palavrasSubir o FTP com blocos de 10 a 30 minutos
Z5 VO2máx106 a 120acima de 1066 a 7: sem falaSubir o teto aeróbico com tiros de 3 a 8 minutos
Z6 Capacidade anaeróbicaacima de 121FC não acompanhamais de 7Tiros de 30 s a 3 min: ataque, subida curta, XCO
Z7 NeuromuscularmáximoFC não acompanhamáximoSprint e arrancada de poucos segundos

Por que a FC some nas duas últimas zonas? Porque o coração demora a responder. Num tiro de 30 segundos, a potência vai a 150% do FTP na primeira pedalada, mas a FC só chega ao pico depois que o tiro acabou. Por isso a potência é a referência para intervalos curtos, e a FC funciona bem em esforços longos e estáveis, de Z1 a Z4.

A FC também deriva: numa hora de Z2 no calor, ela sobe com a potência parada, porque você perde líquido, o volume de sangue cai e o coração compensa batendo mais.

Como medir o FTP e a frequência cardíaca, com ou sem medidor de potência?

Teste de 20 minutos (Allen e Coggan). Uns 20 minutos de aquecimento leve, três acelerações de um minuto com cadência alta, cinco minutos leves, cinco minutos no máximo, mais cinco leves e então os 20 minutos de teste, no ritmo mais forte que você sustenta até o fim. O FTP é a potência média dos 20 minutos vezes 0,95. O esforço de cinco minutos gasta parte da reserva anaeróbica, para que ela não infle a média acima do que você aguentaria por uma hora. O 0,95 é uma média: Hunter Allen escreve que alguns ciclistas precisam descontar mais de 5%, e outros, só 3%.

Ramp test. Popularizado por TrainerRoad e Zwift, aumenta a carga a cada minuto até você não aguentar mais. O FTP estimado é 75% da melhor potência de um minuto. É mais curto e não exige saber dosar o ritmo, mas quem tem muita força anaeróbica aguenta mais degraus e sai com FTP otimista. Se os blocos de limiar ficarem impossíveis, baixe o número alguns watts.

FC de limiar sem medidor de potência. Com uma cinta cardíaca, faça o contrarrelógio de 30 minutos proposto pelo treinador Joe Friel, sozinho e no máximo sustentável: aperte a volta aos 10 minutos, e a FC média dos últimos 20 é a sua FC de limiar.

FC máxima pela idade. O jeito mais simples e menos preciso. A fórmula 220 menos a idade erra bastante; a de Tanaka, Monahan e Seals (2001), tirada de 351 estudos com quase 19 mil pessoas, é melhor: FCmáx = 208 − 0,7 × idade. Mesmo assim, o erro individual passa de 10 batimentos; se puder, use a maior FC que você viu num esforço máximo real.

Quatro jeitos de achar o seu número de referência
TesteDuração (min)Como calcularPrecisa deCuidado
20 minutos (Allen/Coggan)cerca de 60 com aquecimentomédia de potência x 0,95medidor de potência ou rolo smartLargar forte demais estraga o teste
Ramp testcerca de 25melhor minuto x 0,75rolo smart ou medidor de potênciaSuperestima quem tem muita força anaeróbica
30 minutos (Friel)cerca de 50 com aquecimentoFC média dos últimos 20 mincinta cardíacaFazer sozinho, fora de grupo e de prova
Fórmula de Tanakanenhum esforço208 − 0,7 x idadenadaErro individual de 10 bpm ou mais

Refaça o teste a cada 6 a 8 semanas, o ritmo em que o condicionamento muda de forma mensurável, segundo Allen, e sempre nas mesmas condições: mesmo aparelho, mesmo horário, descansado e alimentado.

O que o ciclocomputador precisa medir

Para treinar por zonas, o aparelho no guidão precisa ler sensores por ANT+ ou Bluetooth: no mínimo uma cinta cardíaca e um sensor de cadência, e um medidor de potência se um dia você comprar. A cinta responde mais rápido que o sensor óptico do relógio, que se perde com a vibração da trilha. No resumo do treino, olhe o tempo em cada zona e a carga, não a velocidade média. A medida de carga mais usada é o TSS de Coggan, em que uma hora exatamente no FTP vale 100 pontos; somar a carga da semana mostra se você sobe em degraus ou dá saltos que cobram a conta depois. Cinta e sensores estão no guia de equipamento.

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iGPSPORT BSC200S ciclocomputador com navegação
Lê cinta, cadência e potência

iGPSPORT BSC200S ciclocomputador com navegação

Para quem quer seguir rota no guidão: navegação, Bluetooth e ANT+ para sensores de cadência e potência.

  • Tela2,5 pol
  • ConexãoBluetooth e ANT+
  • NavegaçãoRota
  • Navegação de rota
  • Bluetooth e ANT+
  • IPX7
  • Tela pequena para mapa detalhado

O iGPSPORT BSC200S é de entrada a intermediário: tela colorida de 2,5 polegadas, pequena para mapa detalhado, com ANT+, Bluetooth e navegação de rota. Em outubro de 2026 ele custava por volta de R$ 600, contra R$ 4 mil a R$ 7 mil de um Garmin Edge 1050, e cobre o que o treino por zonas pede.

Polarizado ou sweet spot: como distribuir a intensidade?

Saber as zonas é metade do problema. A outra metade é quanto tempo passar em cada uma. Stephen Seiler, fisiologista americano radicado na Noruega, analisou como treinam atletas de endurance de elite e descreveu em 2006, com Kjerland, o modelo polarizado: cerca de 75 a 80% do treino em intensidade baixa (abaixo do primeiro limiar, Z1 e Z2 de Coggan), uns 5% no meio e 15 a 20% em intensidade alta (Z5 e Z6). A revisão de Stöggl e Sperlich (2015) mostra que atletas de nível mundial o usam ao menos em parte da temporada.

O porquê: o treino leve gera adaptação aeróbica (mais mitocôndrias e capilares) com pouco estresse, então dá para fazer muito dele; o muito forte estimula o VO2máx, que volume leve não alcança; e o meio-termo cansa quase como o forte sem dar o mesmo estímulo.

Em ciclistas, dois estudos randomizados apoiam a ideia. Neal e colegas (Journal of Applied Physiology, 2013) compararam 12 ciclistas treinados em blocos de seis semanas: o polarizado (80% leve, 20% forte, 6,4 horas por semana) rendeu mais adaptação que o de limiar (57% leve, 43% moderado, 7,5 horas), com menos horas. Stöggl e Sperlich (2014) dividiram 48 atletas de endurance, ciclistas entre eles, em quatro grupos por nove semanas; o polarizado subiu mais o VO2pico (cerca de 11,7%) e o tempo até a exaustão (cerca de 17,4%).

A ressalva: são estudos curtos, com poucos atletas que já treinavam bastante. A revisão de 2015 mostra que a maioria dos atletas descritos na literatura usa distribuição piramidal (muito leve, algum moderado, pouco forte), que também funciona. Ninguém provou que o amador de cinco horas por semana precisa ser polarizado.

Onde entra o sweet spot

Sweet spot é a faixa entre o topo da Z3 e o começo da Z4. Não há definição oficial: a faixa típica fica perto de 88 a 94% do FTP, e alguns treinadores e plataformas a alargam um pouco para cima ou para baixo. Dá estímulo próximo do limiar com menos fadiga, em blocos de 2 x 20 ou 3 x 15 minutos, e rende muita carga em pouco tempo. O risco é virar a semana inteira. Uma regra que concilia os dois: com menos de 6 horas por semana, um ou dois blocos de sweet spot ou limiar mais um longo leve rendem mais que tentar ser polarizado com pouco volume leve. Passando de 8 a 10 horas, aumente a fatia leve e troque parte do sweet spot por tiros de VO2máx: a semana vai naturalmente para o polarizado.

Como montar a planilha de treino da semana?

Uma planilha boa tem três camadas. A semana alterna dia forte e leve, com ao menos uma folga. O bloco de quatro semanas sobe a carga por três e alivia na quarta, cortando o volume pela metade ou perto disso, o esquema de 3 para 1 mais comum entre treinadores. A temporada vai da base aeróbica aos blocos específicos e ao polimento antes da prova. Nos modelos abaixo, ajuste os dias à sua rotina, mas nunca ponha dois treinos fortes seguidos e proteja o longo do fim de semana, onde a maioria dos amadores tem tempo de verdade.

Planilha de treino ciclismo: modelo de semana para três objetivos (zonas de Coggan)
DiaIniciante (3 a 4 dias, 4 a 6 h)Intermediário (5 a 6 dias, 7 a 10 h)Desafio de MTB ou granfondo (6 dias, 9 a 12 h)
SegundaFolgaFolga ou forçaFolga ou 45 min Z1
Terça60 min com 3 x 8 min em Z3 alto, 4 min leves entre eles75 min com 5 x 4 min em Z5, 4 min leves entre eles90 min com 5 x 5 min em Z5 ou 6 x 3 min em subida
QuartaForça (40 min) ou folga60 min Z2 + força75 min Z2 + força
Quinta60 min Z2 com 6 acelerações de 15 s75 min com 2 x 20 min em sweet spot90 min com 3 x 15 min em Z4 ou 2 x 30 min em Z3
SextaFolgaFolga ou 45 min Z160 min Z2 com acelerações curtas
Sábado1h30 a 2h30 em Z2, no terreno da sua modalidade2h30 a 3h Z2, com 20 a 30 min em Z3 no fim3h30 a 5h no terreno e no ritmo da prova, comendo como no dia
DomingoPedal leve opcional de 60 min1h30 a 2h Z22h a 3h Z2, com a fadiga de sábado

O iniciante tem um objetivo nos primeiros três meses: criar hábito e base aeróbica. Um treino com alguma intensidade por semana basta; o resto é Z2 e folga. Se a bike incomoda, resolva a posição antes; a calculadora de tamanho de quadro ajuda. O intermediário já tem base e precisa de estímulo de topo: um dia de VO2máx, um de sweet spot e o resto leve, que em horas passa de 75% da semana.

A coluna do desafio serve para maratonas de MTB, como o Iron Biker em Mariana (MG), que em 12 e 13 de setembro de 2026 teve 88 km no sábado e 80 km no domingo no percurso completo, ou a Brasil Ride, de sete etapas; e para granfondos de serra, como o L'Étape Brasil em Cunha (SP), com 111 km e cerca de 2.400 m de subida acumulada no percurso longo da edição de março de 2026. O longo de sábado reproduz terreno, duração e comida da prova; o domingo ensina a pedalar cansado. Use esse modelo nas 8 a 12 semanas antes da prova, depois de ao menos dois meses de base, e corte boa parte do volume na última semana, mantendo alguns tiros curtos. No MTB, faça parte dos intervalos na trilha: subir técnico em pedra solta pede picos de potência que o asfalto não reproduz. Lugares para isso estão em trilhas e bike parks.

Treino no rolo: qual escolher e como não derreter?

O treino no rolo resolve três problemas brasileiros: a chuva de verão no fim da tarde, a estrada sem acostamento e o escuro de quem só pedala às 5h ou às 21h. Sem semáforo, descida ou vento, o esforço fica constante, e uma hora de rolo rende mais carga que uma hora na rua. No Brasil, "rolo livre" serve tanto para o rolo de cilindros, em que a bike fica solta, quanto para o rolo simples de roda traseira, em que a carga muda pelas marchas.

Tipos de rolo de treino e o que cada um entrega
TipoComo faz resistênciaMede potência?Ruído e sensaçãoPara quem
Rolo de cilindros (livre)Atrito do pneu nos cilindros; carga baixaNãoSilencioso; exige equilíbrioTécnica, giro e aquecimento antes de prova
Roda traseira simples ou magnéticoÍmã freia um disco; alavanca muda a cargaNão (só estimada por app)Barulho médio; carga "achata" em velocidade altaQuem treina por FC e quer gastar pouco
Roda traseira fluidoHélice em óleo; resistência cresce com a velocidadeNãoMais parecido com a ruaTreino por FC com sensação natural
Smart de roda traseiraFreio eletromagnético controlado pelo appSim, com margem maior por causa do pneuSilencioso; pede calibraçãoZwift e potência sem medidor na bike
Direct driveBike encaixada sem a roda, no cassete do roloSim, com a melhor precisãoO mais silencioso e estávelTreino estruturado sério e simulação de subida

Em preço de rolo novo no Brasil, em outubro de 2026 e arredondado: cilindros e magnéticos simples custavam de R$ 500 a R$ 700; um fluido de marca, de R$ 3,4 mil a R$ 4 mil, quase o preço de um smart de entrada; smart de roda traseira, perto de R$ 3 mil; e direct drive, de R$ 5 mil a mais de R$ 10 mil.

A física explica as diferenças. Potência é força vezes velocidade. No magnético, a frenagem quase não cresce depois de certa rotação, e em marcha pesada o esforço fica "vazio". No fluido, a resistência sobe com a velocidade, como o arrasto do ar na rua. Nos dois, o pneu escorrega, esquenta e se gasta no cilindro; por isso o smart de roda traseira pede calibração, e o direct drive, sem pneu, mede melhor. O preço dele é a compatibilidade: cassete para o seu número de marchas e adaptador para o eixo (blocagem ou passante). A calculadora de relação de marchas e a seção de oficina ajudam nessa conta.

O smart abre a porta para os aplicativos. No modo ERG, o rolo segura a potência do intervalo sozinho, qualquer que seja a marcha ou a cadência: se o treino manda 4 minutos a 230 W, ele trava em 230 W. No modo simulação, ele endurece nas subidas virtuais do Zwift, do Rouvy ou do MyWhoosh.

01
ThinkRider X2Max rolo inteligente
Smart de entrada para Zwift

ThinkRider X2Max rolo inteligente

Para treinar com Zwift e aplicativos: o rolo mede a potência e muda a resistência sozinho.

  • TipoSmart, roda traseira
  • ConexãoBluetooth e ANT+
  • AppsZwift e outros
  • Bluetooth e ANT+, compatível com Zwift
  • Mede potência
  • Silencioso e portátil
  • Poucas avaliações na Amazon
  • Precisa de tomada

O ThinkRider X2Max é um smart de roda traseira com Bluetooth e ANT+ que mede potência e conversa com o Zwift: faz o teste de FTP e o modo ERG sem medidor na bike. É de entrada, custava perto de R$ 3 mil em outubro de 2026, tem poucas avaliações na Amazon até agora e o limite de precisão de todo rolo de roda traseira. Com orçamento menor, um magnético com alavanca de carga, como o Absolute Wild 8 (por volta de R$ 500 a R$ 700), e uma cinta cardíaca cumprem a planilha por FC.

Calor e ventilação dentro de casa

Na rua, a 30 km/h, o vento leva o calor embora. No rolo, num quarto fechado, não. O corpo converte só de 20 a 25% da energia em movimento: quem produz 200 W gera quatro a cinco vezes isso no total, e o resto vira calor. Sem dissipar, a FC deriva e a potência cai antes de a perna cansar.

Força, sono e descanso: o que acontece fora da bike?

Ciclista não precisa de perna de fisiculturista, mas ganha com força. A revisão de Bent Rønnestad e Iñigo Mujika (Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports, 2014) concluiu que o treino de força pesado, somado ao de endurance, melhora a economia de pedalada e o desempenho de ciclistas. O mecanismo proposto: com fibras mais fortes, cada pedalada usa uma fração menor da força máxima e recruta menos fibras rápidas, que cansam cedo.

Faça duas sessões por semana na base e uma na fase de prova: agachamento, leg press, levantamento terra romeno, avanço e subida no banco para a perna; prancha e ponte para o tronco que segura o quadril no selim. Comece com cargas moderadas por três a quatro semanas para aprender o movimento, depois passe a séries pesadas e curtas, de 4 a 10 repetições. Nunca faça força na véspera do intervalo mais importante. No MTB, braço e ombro também contam, como sabe quem anda de downhill. Alongamento não tem boa evidência de melhorar desempenho, mas dez minutos de mobilidade de quadril, coluna torácica e panturrilha ajudam a ficar confortável no selim; dor que não passa é caso de bike fit.

O sono é o maior recurso de recuperação, e o mais barato. O consenso de 2015 da American Academy of Sleep Medicine com a Sleep Research Society recomenda 7 horas ou mais por noite para adultos. Antes de qualquer suplemento, proteja o sono: horário fixo, quarto escuro e fresco, cafeína só até o começo da tarde.

O consenso ECSS/ACSM separa três estados. O overreaching funcional é a queda curta de desempenho depois de um bloco duro, que vira melhora após alguns dias de descanso: é o efeito planejado de uma semana de carga. O overreaching não funcional é a queda que dura semanas, com cansaço e humor alterado. A síndrome de overtraining é o extremo, com meses de desempenho baixo. Os autores reconhecem que nenhum exame isolado diagnostica o quadro; o diagnóstico é por exclusão.

A prevenção é a própria planilha, mais um diário simples com sono, cansaço de 0 a 10 e vontade de treinar: três dias seguidos de nota ruim valem mais que qualquer número do ciclocomputador.

Quanto comer e beber durante o treino?

O músculo queima glicogênio (açúcar guardado) em proporção maior conforme a intensidade sobe. Em pedal de mais de duas horas com trechos fortes, o estoque baixa e a perna "apaga". A revisão de Asker Jeukendrup (Sports Medicine, 2014) organiza a recomendação pela duração:

  • Até cerca de 1 hora: não precisa comer; no esforço forte de 45 a 75 minutos, enxaguar a boca com bebida esportiva ou ingerir pouco já pode ajudar.
  • 1 a 2 horas: até 30 g de carboidrato por hora.
  • 2 a 3 horas: até 60 g por hora, perto do máximo que o intestino absorve de uma fonte só, como glicose ou maltodextrina.
  • Mais de 2,5 a 3 horas: até 90 g por hora, misturando glicose e frutose, que usam transportadores diferentes no intestino.

A conta é por hora e pode cair quando a intensidade é baixa. Em comida: uma banana média tem perto de 27 g de carboidrato; 500 mL de isotônico a 6% têm 30 g; um gel costuma ter de 20 a 30 g (confira o rótulo). Para 60 g/h, uma caramanhola de isotônico e um gel por hora resolvem. Para 90 g/h, o intestino precisa de treino (Jeukendrup aponta que a tolerância melhora com a prática): teste nos longos, nunca no dia da prova.

Na hidratação, o ACSM define o objetivo: não perder mais de 2% do peso corporal em água no treino, nem mudar demais os eletrólitos. Para quem pesa 75 kg, 2% são 1,5 kg. Como o suor varia muito, o próprio ACSM manda medir o seu: pese-se sem roupa antes e depois de uma hora de treino. Cada quilo a menos é cerca de 1 litro de suor que faltou repor; some o que bebeu e terá o seu suor por hora.

No verão do Centro-Oeste, do interior paulista ou do Nordeste, com mais de 30 °C e umidade alta, o suor evapora mal e a perda dispara. Em treino longo e quente, bebida com eletrólitos e carboidrato rende mais que água pura, como o ACSM reconhece. Comece hidratado, marque o longo para as 6h e mapeie os pontos de água: estrada de terra no interior pode passar dezenas de quilômetros sem um bar. Beber demais também faz mal: ganhar peso durante o treino é sinal de exagero, e água pura em excesso dilui o sódio do sangue.

Perguntas frequentes

Qual é um bom FTP para iniciante?

Não existe número certo: o que importa são os watts por quilo (FTP dividido pelo peso) e a evolução entre um teste e o seguinte. Compare você com você mesmo de 8 semanas atrás, não com o vizinho do Strava.

Dá para treinar por zonas sem medidor de potência?

Dá. Com cinta cardíaca e o teste de 30 minutos de Friel, você acha a FC de limiar e treina bem de Z1 a Z4. Nos tiros curtos, use a sensação de esforço, porque a FC demora a subir.

Quantas vezes por semana preciso pedalar para evoluir?

Três dias e 4 a 6 horas por semana já trazem melhora clara para quem começa. Subir para 5 ou 6 dias ajuda, desde que a semana mantenha dias leves e uma folga.

Treino no rolo vale o mesmo que na rua?

Em carga, vale até mais por hora, porque o esforço não para em descida ou semáforo. Ele não treina técnica, curva nem descida, então mantenha o longo na rua ou na trilha sempre que der.

O que é zona 2 no ciclismo?

É o ritmo de endurance, de 56 a 75% do FTP, em que você conversa frases inteiras. É a base de qualquer plano e deve ocupar a maior parte das horas da semana.

Quanto carboidrato comer num pedal de 3 horas?

De 60 a 90 g por hora, segundo Jeukendrup: até 60 g/h com uma fonte só e perto de 90 g/h com glicose e frutose, depois de treinar o intestino nos longos.

Fontes e referências

  1. Andrew Coggan (TrainingPeaks), níveis de treino por potência
  2. Hunter Allen (Favero), o teste de FTP de 20 minutos
  3. TrainerRoad, como funciona o Ramp Test
  4. Stöggl e Sperlich (2014), Frontiers in Physiology: polarizado x limiar, volume e HIIT
  5. Stöggl e Sperlich (2015), Frontiers in Physiology: distribuição de intensidade em atletas de endurance
  6. Seiler-Viken, Seiler e colegas (2025), Scientific Reports: a escala norueguesa de zonas
  7. Tanaka, Monahan e Seals (2001), JACC: frequência cardíaca máxima pela idade
  8. Jeukendrup (2014), Sports Medicine: carboidrato durante o exercício
  9. ACSM, posicionamento sobre exercício e reposição de líquidos
  10. Meeusen e colegas (2013), consenso ECSS/ACSM sobre overtraining
  11. Iron Biker Brasil 2026, datas e percursos (Sou BH)
  12. Bike Magazine, resultados do L'Étape Cunha 2026

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